Lar, doce lar

Junto ao mar do Morro das Pedras, na capital de Santa Catarina, o Circo da Dona Bilica é mais do que uma lona de espetáculos. O espaço cultural acolhe palhaços locais e visitantes, serve de ponto de encontro para a comunidade e de escola para artistas iniciantes

Ólhó-lhó, não entisica com a bucica, ô istepô. Espia, espia, espia! Qués vir no circo da Dona Bilica? Então, atina! Vás toda vida reto, lá no Morro das Pedras, cambas às esquerdas, depois cambas às direitas e tu vás dar com os cornos aqui, no Circo da Bilica. Vem pra cá, ô medonho.

É assim que a Dona Bilica, personagem conhecida pelos moradores de Florianópolis (SC), convida as pessoas para conhecerem sua casa. A “manezinha da ilha” (como são chamados os nativos da capital catarinense) é fruto da pesquisa que a atriz florianopolitana Vanderléia Will iniciou em 1991, quando estudava Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). A convite do ator Geraldo Cunha, criou Dona Bilica, a esposa de Seo Maneca, uma dupla que representava o jeito de falar, os causos, religiosidades e crendices dos moradores da ilha.

Apesar de a dupla ter sido extinta em 1998, a atriz continuou em cena com sua personagem, se aprofundou cada vez mais nas tradições de Florianópolis e montou espetáculos baseados na linguagem do palhaço. “Inevitavelmente a Bilica é cômica, e dentro desse cômico eu uso o jogo do palhaço, como a técnica dos três tempos, a máscara, o olhar. Essa mistura de circo, teatro e cultura açoriana só enriquece o trabalho”, explica.

De tão conhecida e relacionada ao riso, a personagem se tornou nome de circo. Há quase dois anos, na beira da praia do Morro das Pedras, uma lona e quatro contêineres grandes e coloridos deram forma a um picadeiro e a um sonho de mais de dez anos. O Circo da Dona Bilica é palco para espetáculos, ambiente de treino para artistas e ponto de encontro para a comunidade.

A ideia foi de Pepe Nuñez, palhaço espanhol que veio morar no Brasil em 1998, ano em que conheceu a atriz manezinha, sua companheira de trabalho e de vida. Desde o 2º Festival Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro, onde se encontraram pela primeira vez, o casal passou a ser reconhecido pela contribuição significativa para a palhaçaria de Florianópolis.

Por meio da companhia que criaram, a Pé de Vento Teatro, desenvolvem espetáculos próprios baseados nas ferramentas do clown, organizam o Ri Catarina, festival de palhaços que acontece todo mês de novembro em Florianópolis, e, em 2013, abriram as portas de um novo lar não só para os artistas da ilha, mas também para aqueles que vinham de longe e não encontravam uma lona para se apresentarem na capital de Santa Catarina.

Se para nascer um palhaço é preciso preparo, capricho e detalhes, para materializar o sonho de um deles não poderia ser diferente. O circo montado no gramado de 1.404 m², com capacidade para 225 pessoas, é fruto de muito trabalho manual e em família, sem investimentos privados. “O assoalho onde a gente pisa foi meu pai quem fez, as janelas os amigos ajudaram a pintar, tudo foi criado pouco a pouco e com muita solidariedade”, conta a atriz sem esconder o sorriso de orgulho.

Mesmo depois de pronto, o circo mantém o espírito familiar. Logo na entrada, pratos típicos espanhóis são cozinhados pela família Nuñez e servidos em um pequeno restaurante com mesas ao ar livre. Os outros sete funcionários do circo são palhaços que trabalham em troca do espaço para ensaio e das orientações do casal. Para Nuñez, o artista aprende mais com essa vivência e troca do que nas oficinas que ele ministra pelo Brasil. “Nós geramos e compartilhamos conhecimento aqui, os palhaços residentes aprendem também a montar, mexer na técnica, iluminação, manutenção. Eles ganham humildade, vivenciam um pouco da proposta antiga do circo e, quando artistas de fora vêm se apresentar, eles olham o trabalho dos nossos residentes, contribuem e ensinam”, comenta.

A proposta do artista espanhol é reflexo de sua trajetória. Nuñez cresceu a 800 metros da praça onde ficava o circo da cidade de Granada,na Espanha. Fascinado pelos palhaços, passava por baixo da lona quando criança para assistir aos espetáculos de grandes artistas, como Charlie Rivel. Sua primeira vez no palco foi por solidariedade a um amigo que se machucou duas semanas antes de um espetáculo. Tímido, aceitou o desafio porque teria o rosto coberto por uma máscara e tudo o que precisaria fazer seria andar com pernas de pau – o que não foi difícil para ele uma vez que já trabalhava com atividades corporais.

Pouco a pouco, o espanhol foi aprendendo com os outros artistas e no ano seguinte, em 1985, Nuñez estava completamente envolvido com o movimento teatral pós-ditadura espanhola. Foi em 1990 que o ator criou o palhaço que leva seu próprio nome. Com a orientação de Gabriel Chame, argentino que por muitos anos trabalhou com os clowns da companhia canadense Cirque du Soleil, nasceu o palhaço Pepe Nuñez, uma figura simples que tenta tocar a humanidade do público e fazer com que as pessoas se esqueçam das ameaças do mundo e, por um momento, comemorem a vida e a alegria.

“Nessa mesma época, meu amigo foi a primeira vítima da AIDS da minha cidade. A morte dele foi muito dolorosa, gerou uma crise grande, porém necessária. Foi necessário eu morrer para renascer e me entregar ao público. Ali eu vi o imenso prazer que eu tinha em provocar alegria nos outros”, conta Nuñez. A partir de então, o ator decidiu viajar o mundo trocando conhecimento com outros palhaços. Entre idas e vindas ao Brasil, conheceu os grupos Intrépida Trupe e Teatro de Anônimo, frequentou a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro (RJ), e encontrou a Vandeca – como ele chama a esposa.

Juntos, o espanhol de 53 anos e a manezinha de 44 somam 16 anos de casados, dois filhos, quatro festivais e um ano e oito meses de circo. A meta é continuar aumentando os números e transformar Florianópolis em um local de intensa atividade artística e cultural. “A valorização do palhaço aqui na ilha ainda está sendo construída, ainda temos um pouco daquela imagem desgastada pela mídia, do palhaço apenas pagando mico. O palhaço fala a verdade, é irônico, sádico e visceral, mas ao mesmo tempo emociona, faz rir e chorar. Acreditamos nesse palhaço puro e verdadeiro, que nos liberta das couraças. É ele que queremos apresentar à comunidade”, completa Vanderléia.

Circo da Dona Bilica
Endereço: Rua Manoel Pedro Vieira, nº 601. Morro das Pedras. Florianópolis – SC
Site: http://www.circodonabilica.com.br
Telefone: (48) 3206 7941

*Matéria editada. A publicação original faz parte do especial multimídia “Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!”, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em junho de 2014.

**Fotos: Diogo Andrade, Betina Humeres e Chris Mayer

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