Entrevista: Patch Adams

Apesar de não apoiar a indústria cinematográfica de Hollywood e afirmar que seu trabalho vai muito além do que é mostrado no filme Patch Adams – O amor é contagioso, foi graças à produção americana que o médico e palhaço Hunter Doherty Adams, o Patch Adams, se tornou conhecido mundialmente.

Precursor dos palhaços de hospitais, Adams acredita que a evolução tecnológica e os sistemas baseados em dinheiro e poder acabaram com a relação entre médicos e pacientes e fizeram com que as pessoas se esquecessem da importância do amor e da amizade. Aos 69 anos, o americano é defensor da influência da saúde mental e espiritual na saúde física e leva a risada até pacientes, soldados, refugiados e pessoas com quem cruza em seu cotidiano.

Além de viajar o mundo dando palestras em faculdades de Medicina e participando de ações socias, o palhaço lidera, desde 1971, o Instituto Gesundheit! (saúde em alemão), que tem como objetivo prestar serviços de saúde com humor, arte e generosidade. Adams tenta, há mais de 40 anos, construir um hospital totalmente gratuito, onde médicos trabalhem com amor e pacientes não sejam reféns de planos de saúde e da indústria farmacêutica.

Na entrevista*, ele fala sobre sua trajetória, a intervenção do palhaço em hospitais e em zonas de conflito, de sua luta pela paz mundial e a importância do riso.

*Foto: divulgação

Francisca Nery: Como e por que você se tornou palhaço? Você fez cursos, teve alguma orientação técnica ou construiu seu clown sozinho?

Patch Adams: Quando eu era criança, oito, nove ou dez anos, fui para bases militares fora dos Estados Unidos. Eu era uma criança magrela e estranha, sofri muito bullying, e descobri que as intimidações não me atingiriam se eu as tornasse risada, então eu virei um bobo para me proteger de ser derrotado. Eu sempre gostei do Jerry Lewis, nos anos 50, vi todos os filmes dele, amava como ele era engraçado. Eu nunca fiz nenhuma aula, nunca recebi nenhuma orientação, com certeza eu assisti a muitas pessoas e filmes engraçados, das antigas estrelas do cinema mudo às atuais. Aos 18 anos, depois de três meses de hospitalizações, ao invés de me suicidar, eu decidi fazer uma revolução, e uma das partes da revolução foi decidir nunca mais ter um dia ruim. Eu tenho sido, por 50 anos, apenas uma pessoa feliz e com muita fé, portanto eu tenho feito palhaçada todos os dias, por 50 anos. Eu comecei a usar fantasias, sou uma pessoa extremamente extrovertida, tudo isso possibilitou eu sair de casa e brincar com o mundo.

FN: Há atores que dizem que apesar de o palhaço ser construído a partir da personalidade deles mesmos, eles interpretam, sim, e não são clowns 24 horas por dia. Eu tenho a impressão contrária de você, parece que você é palhaço o tempo todo.

PA: Esse sou eu, você está certa! Eu decidi fazer isso, eu decidi não ter nenhum intervalo. Vestir roupas de palhaço não faz você ser um deles, atuar nelas é o que faz de você um palhaço, eu escolhi isso. Eu estou sempre pronto e interessado em fazer coisas loucas onde quer que eu esteja, eu não escolho hospitais como os únicos lugares para fazer palhaçada. Um dos meus suportes é a maior cueca do mundo. Na semana passada, no Equador, eu coloquei o presidente Rafael Correa dentro dela comigo! Ele foi o segundo presidente de um país que fez isso… Eu amo fazer essas coisas!

FN: No Brasil nós vemos muitos palhaços que se vestem de doutores. Você é um médico que atua como palhaço. Você vê alguma diferença entre esses trabalhos ou o que realmente importa é a humanização e a risada?

PA: Pessoalmente, eu não entendo esse movimento de chamar palhaços de “palhaços doutores”, acho que isso, de certa forma, insulta o palhaço. Ele não precisa do rótulo de doutor. Acho que, às vezes, as pessoas fazem isso para tentar ganhar um status, para conseguir um emprego, esse tipo de coisa. Mas a ideia de um palhaço vestindo um jaleco de médico para mim é entediante. Na verdade, eu me considero um palhaço que é médico, não o contrário. Eu fui palhaço primeiro e é isso que a minha alma é, é um palhaço. Acho que muitos dos “palhaços doutores” – porque eu comecei a fazer isso 50 anos atrás e esses palhaços ficaram mais populares nos últimos 10 a 15 anos – tem um monte de treinamento formal, “palhaço bom”, “palhaço ruim”, maneira certa de fazer as coisas, certificados… Eu não apoio nada disso. Nós deixamos todo mundo ser palhaço com a gente, temos clowns de 3 até 88 anos de idade, não exigimos nenhuma habilidade, então acredito que isso distingua a gente de muitos “palhaços doutores”, porque eles precisam passar no teste ou treinar um monte e, muitas vezes, eles são mais qualificados fazendo números de palhaços do que amorosos e profundos, o que eu considero o truque do palhaço para levar amor às pessoas.

FN: Algumas pessoas ainda questionam como alguém pode lidar com a ciência, que é precisa e racional, de uma forma subjetiva, psicológica e emocional…

PA: Eu acho errônea a concepção de ciência como algo sempre preciso e racional, há muita subjetividade na ciência. Certamente, quantias enormes de coisas subjetivas, psicológicas e emocionais, então, na verdade, eu acredito que há muitas ciências – Psicologia, Bioquímica, Sociologia, Educação – que apoiam a ideia de que felicidade, graça e amor são poderosíssimos na busca por uma vida saudável.

FN: Parece que o sistema de saúde tem se tornado mais um negócio do que algo para o bem estar das pessoas. A humanização foi perdida?

PA: Eu sei muito bem que isso é verdade. E sei muito bem que a humanização foi perdida. Não há hospital feliz no mundo, eu já olhei por tudo, ninguém nunca mencionou um, eu falo com estudantes de Medicina e profissionais de 120 países e nenhum deles gosta do contexto em que praticam a Medicina.

FN: Faz parte da função do palhaço trazer essa humanidade de volta?

PA: Acho que a maioria dos palhaços que trabalham em hospitais não estão pensando nisso, eles são palhaços em hospitais mas não pessoas politizadas.  Essa preocupação com certeza está nas minhas intervenções e, é claro, há clowns querendo trazer a humanização de volta. Mas acredito que, por serem palhaços em um sistema super rígido, formal e hierárquico, com médicos com comportamentos autoritários, frequentemente eles sentem ser inútil lutar contra essa desumanização. Mas os palhaços podem e trazem mais leveza e diversão ao hospital.

FN: E como é a intervenção em ambientes tão delicados como hospitais e zonas de conflito? Como podemos encontrar o riso nessas circunstâncias?

PA: Bem, a palhaçada é um truque para aproximar o amor… Apesar de serem situações horríveis, a vida anda. As pessoas que vemos, honestamente, são as mães do mundo. Em campos de refugiados, zonas de guerra, em situações terríveis de hospitais, as mães estão tentando trazer amor, luz e risada para suas famílias, não apenas às crianças, mas pessoas de todas as idades. Eu acho que é a inclinação natural de um ser humano saudável, quando ele vê sofrimento ele quer aliviar a dor e, realmente, faz mais sentido trazer alívio, amor e fé para essas circunstâncias.

FN: Quais impactos podem ser observados uma vez que há um palhaço nesses locais?

PA: Sabe, as pessoas podem falar “sai daqui, eu odeio palhaço!”, esse é um impacto, e tudo de um nível de intimidade que… Quando eu falo que ser palhaço é um truque para aproximar o amor, eu realmente quero que as pessoas escutem isso, o impacto do amor é sempre maravilhoso. Inúmeras pessoas não sabem nada sobre o amor. As pessoas não estão acostumadas a pensar que em situações extremamente trágicas pode haver graça, pode acontecer uma risada.  Eu já vi, na pior situação que você possa imaginar, o amor, a diversão e a alegria transformarem a realidade em algo lindo!

FN: Para quais lugares você já levou grupos de palhaços? Onde mais gostaria de ir?

PA: A todos os lugares. Todas as zonas de guerra, campos de refugiados, desastres, desastres humanos individuais, nas ruas, em metrôs, restaurantes… Eu vivo em roupas de palhaço e se eu vejo pessoas brigando eu mudo para o meu personagem e, em 50 anos, eu parei a briga em 100% das vezes. Eu simplesmente acredito que qualquer lugar é bom para se levar palhaços. Onde mais eu gostaria de ir? Quando eu vou a um hospital, orfanato ou instituição, eu frequentemente peço aos funcionários para, por favor, me levarem aos pacientes que estão sofrendo mais. Eu gosto de levar amor onde há muita dor, porque eu acredito que na maioria dos casos algo pode acontecer.

FN: E qual foi a situação mais complicada em que você interviu?

PA: Sinceramente, o fato de que não há governo no planeta que eu respeite, de que o capitalismo tem destruído tanto a alma da política, da economia e do ambiente que nada que eu estude diz que a humanidade, os seres humanos sobreviverão aos séculos como espécies. Eu não acho que seja tarde, mas globalmente a humanidade está sendo extinta facilmente, está aceitando a ideia de que dinheiro e poder sobre terceiros é o que vale a pena. Eu vejo tanto horror… Uma vez, em Trinidad [e Tobago], me pediram para fazer uma intervenção para cinco homens que iam ser enforcados no dia seguinte por crimes capitais, eles eram assassinos. Quatro deles se divertiram um monte, nós demos risada, realmente aproveitamos o momento juntos.

FN: Então como você enxerga a realidade atual? O que você imagina para o futuro?

A: Eu tenho sido um ativista político por 50 anos, meu trabalho é acabar com o sistema capitalista e fazer com que paremos de fazer dinheiro e poder em detrimento dos outros e construamos um sistema com valores adoráveis. Duas das iniciativas são: nenhuma escola do mundo ensina amor, eu gostaria que todas as escolas públicas, do maternal ao ensino médio, dessem mais importância ao ensino do amor do que da matemática uma hora por dia, cinco dias da semana, por 13 anos, ensinassem amor como algo inteligente; nenhuma faculdade de Medicina no mundo ensina compaixão, eu amaria que essas faculdades insistissem em ensinar compaixão. Eu não sei se será possível sobreviver se continuarmos vivendo no capitalismo, ele é, na minha interpretação da vida, a causa de todos os problemas. Se não mudarmos, eu não vejo futuro algum para a humanidade, eu acho que estaremos extintos até o final do século.

FN: Qualquer um, mesmo não sendo ator ou médico, pode encontrar em si mesmo a arte de fazer as pessoas rirem, mudar a realidade e colaborar para um mundo melhor?

PA: Com certeza, faça isso! Nós já realizamos de 150 a 170 viagens de palhaços por todo o mundo, talvez 6 mil pessoas diferentes, de 50 países, de 3 a 88 anos de idade, apenas com cinco não deu certo. Então qualquer um pode fazer isso, tudo o que você precisa é tomar a decisão, e vestir roupas de palhaço torna tudo mais fácil.

FN: O Instituto Gesundheit! já construiu o hospital gratuito? Quais são os planos?

PA: Bem que eu queria! Quando eu comecei, em 1971, eu pensei que ele estaria construído até 1975. Isso é uma piada… Em 2011, no 47º ano, nós começamos a construir nosso primeiro prédio, o Centro de Ensino, está ficando cada vez melhor e estamos chegando bem perto. Eu nunca desanimei, é uma alegria trabalhar por amor. Quando você tem 43 anos para planejar algo, pode apostar que há muitos detalhes. O que começou sendo um hospital no nosso pobre estado de Virgínia do Oeste, hoje está ativo em 40 países, fazendo coisas em todo o mundo, é um projeto muito mais inteligente.

FN: E o que é necessário para fazer parte da sua equipe?

PA: Quando nós abrirmos, 120 pessoas vão viver na propriedade. Essas pessoas deverão ser comprometidas a viver comunitariamente, sem chefes, com um salário bem baixo de US$ 300 mensais, em um contexto feliz, engraçado, amável, cooperativo, criativo e cuidadoso, onde todos servirão à humanidade com brilho. Além dessas pessoas, qualquer um poderá trabalhar meio período, visitar com um grupo de palhaços, ser voluntário, assistir às aulas, ajudar no hospital… Para o meio período poderá ser praticamente qualquer pessoa.

* Entrevista realizada por telefone em fevereiro de 2014. Tradução de Francisca Nery com colaboração de Manuel Antonio da Silva e Rebeca Heringer e revisão de Thelma Eloísa de Oliveira.  A publicação original faz parte do especial multimídia “Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!”, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em junho de 2014.

** Foto: divulgação

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